Rio, Onde os Malandros Viraram Manés

Obcecados por sucesso, os norte-americanos têm o hábito de dividir os seres humanos em vencedores e perdedores. Já neste nosso país tropical, por se considerarem insuperavelmente espertos os cariocas dividem os brasileiros em malandros e otários. E, nem seria preciso dizer, nenhum carioca admite ser otário, todos se orgulham de ser malandros, obedientes à Lei de Gérson: “Gosto de levar vantagem em tudo, certo?” Otários somos todos nós, os que não ostentam o galardão de intitular-se “carioca da gema”.

Isso vem de longe, desde sempre os cariocas têm manifesta simpatia pela figura do malandro, celebrizada em personagens de sambas, filmes e peças teatrais que exibem a esperteza e a malícia como marcas exclusivas dos nascidos no Rio. Se bem que foi um pernambucano, o sambista Bezerra da Silva, quem deu forma definitiva ao orgulhoso lema dos nativos do Rio: “Malandro é malandro, mané é mané”.

Muito melhor que eu, o jornalista J. R. Guzzo apontou nas páginas da revista “Veja” o perfil do carioca: “Há uma parte da população do Rio de Janeiro que sempre construiu para si própria, e para o restante do Brasil que presta atenção no que se fala ali, uma imagem de sua cidade como o centro nacional e mundial da malandragem. Seria uma grande virtude. Esse ‘espírito’, na sua maneira de ver as coisas, faz do Rio uma cidade superior às demais. Faz de seus cidadãos pessoas mais inteligentes, mais aptas a lidar com a vida e mais hábeis que os outros brasileiros em conseguir o melhor para si próprias. (…) Sujeito honesto, cumpridor das leis, pagador de impostos, respeitador das regras de trânsito, bem educado, etc. – tudo isso, cada vez mais, passa a ser visto como uma fraqueza, além de burrice, falta de ‘jogo de cintura’ e outros delitos graves”.

É por causa dessa cultura da malandragem que o Rio de Janeiro transformou-se hoje num imenso contingente de manés, reféns dos malandros que já não se comprazem com a contravenção do jogo do bicho, preferindo empunhar fuzis para impor o tráfico de drogas. Não se passa um único dia sem que, por lá, a contagem de homicídios aumente de forma exponencial. Sejamos sinceros, dá vontade de dizer: bem feito!

A nós, a malta de otários que habita o restante do Brasil, especialmente aos paulistas que têm o mau gosto de dedicar-se ao trabalho em vez de curtir uma praia, caberá pagar os bilhões que estão sendo investidos numa intervenção militar com o objetivo de, ao menos, minorar o atual desconforto dos espertíssimos cariocas.

Pensa que se acanham, que se arrependem? Que nada. Reconheçamos, eles são exímios em criar gírias e piadas, até para rirem de si mesmos. Em meio à guerra urbana, eles dizem que carioca não liga para bala perdida. Porque isso entra por um ouvido e sai pelo outro….

 

Quem Tem Raiva da Beleza?

Quando se cogitou a construção da Torre Eiffel em Paris, para a Exposição Universal de 1889, houve intensa polêmica. Um manifesto assinado por escritores, pintores, escultores e arquitetos franceses a considerava “inútil e monstruosa”. Só foi possível construí-la com a promessa de que 20 anos depois seria demolida, para não enfear a cidade. Porém, ao fim desse prazo ninguém mais queria a demolição. A torre havia se transformado no principal símbolo de Paris e viria a ser o monumento mais visitado do mundo.

Lembrei-me disso ao ver a foto da maquete do que será o Arco da Inovação em São José, concebido pelo arquiteto Catão Francisco Ribeiro, autor da imponente ponte estaiada de São Paulo na Marginal do Pinheiros.

Sem surpresa, vi que nos dias seguintes surgiram críticos dizendo que a obra será um desperdício de dinheiro. Houve até uma leitora deste jornal opinando que o projeto “é cafona”. Cafona?! Engraçado, eu o achei muito bonito e aposto que, tão logo seja inaugurado, será o ícone mais fotografado na paisagem de São José dos Campos, consolidando a visão de sermos uma das cidades mais lindas e progressistas do país.
Estranho que os críticos, quase todos ligados ao PT, insistam em dizer que o Arco privilegiará o tráfego de automóveis. A menos que eu tenha desaprendido a ler, era nítida a informação de que por ele irão transitar 18 linhas de ônibus urbanos, transportando cerca de 60.000 passageiros em 1.246 viagens diárias, direcionadas a todas as regiões periféricas.

Não é de hoje que o pessoal do PT detesta tudo que torne a cidade mais bonita. Há alguns anos, eles esgoelaram em fúria para censurar a saudosa arquiteta Juana Blanco, que ousava plantar palmeiras à margem das principais avenidas de São José e, pior ainda, tinha a audácia de ornamentá-las com floreiras. Que horror!

Por que não imitar a estética da prefeita petista Ângela Guadagnin, que embelezava os acostamentos da Avenida Jorge Zarur, nos dois sentidos, com montes de entulho despejados por carroças e caminhões? Aquilo, sim, atendia ao gosto dos petistas.

À época, em defesa de Juana Blanco publiquei um artigo com o título “Quem Tem Raiva da Beleza?” Volto a utilizá-lo hoje, quando se renova o rugir dos furibundos.

Os rabugentos reclamam também que o Arco será caro e não é prioritário. Nesse caso, permito-me indagar-lhes: por que se silenciaram quando o prefeito Carlinhos Almeida, inspirado na Fórmula 1, construiu chicanas em meio à reta da Avenida 9 de Julho? E o que têm a dizer sobre os inúteis e medonhos quiosques que ele construiu à beira do Banhado e hoje permanecem fechados o dia inteiro?

Gostaria que explicassem se as chicanas e os quiosques eram obras prioritárias e quanto custaram aos cofres municipais.